{"id":203,"date":"2020-05-02T23:15:24","date_gmt":"2020-05-03T03:15:24","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/?p=203"},"modified":"2020-05-12T19:19:05","modified_gmt":"2020-05-12T23:19:05","slug":"transcricao-das-palestras-de-sonia-guajajara-e-celia-xakriaba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/2020\/05\/02\/transcricao-das-palestras-de-sonia-guajajara-e-celia-xakriaba\/","title":{"rendered":"Transcri\u00e7\u00e3o das Palestras de S\u00f4nia Guajajara e C\u00e9lia Xakriab\u00e1"},"content":{"rendered":"<h2>Indigenous Women on the Front Lines of Climate Activism: The Battle for Environmental Justice<br \/>\nin the Amazon<\/h2>\n<h4>2:20 &#8211; 11:00 &#8212; transcrita por Sara Shuler e Em Tejada Jaquez<\/h4>\n<p>Eu consegui cantar porque eu acho que o ar condicionado me deixou meio, mas \u00e9 uma forma de nunca falar sozinha, principalmente o canto na verdade foi a principal arma que n\u00e3o permitiu que os povos ind\u00edgenas fossem\u00a0 exterminados no Brasil. Eu sou C\u00e9lia Xakriab\u00e1, venho da regi\u00e3o do bioma do Cerrado. \u00c9 importante tamb\u00e9m reconhecer que n\u00e3o apenas Amaz\u00f4nia hoje est\u00e1 sob a mira do<\/p>\n<p>O ecoc\u00eddio, mas tamb\u00e9m o Cerrado que \u00e9 o segundo maior bioma do Brasil, e hoje 90% da soja que \u00e9 exportado do Brasil tamb\u00e9m vem da regi\u00e3o do Cerrado, ent\u00e3o pra compreender o fogo criminoso que acontece na Amaz\u00f4nia \u00e9 precisa-se compreender que esse fogo \u00e9 o que historicamente queima o bioma Cerrado. \u00c9 o mesmo fogo tamb\u00e9m que queimam as casas de reza ind\u00edgenas Guarani, tamb\u00e9m esse fogo que historicamente queimou e tamb\u00e9m estuprou os corpos das mulheres ind\u00edgenas. Eu venho do bioma do Cerrado e todas as vezes as pessoas perguntam por que que n\u00f3s fazemos essa luta no exterior, e n\u00f3s perguntamos, \u201cO que voc\u00eas fariam se sua m\u00e3e estivesse sendo arrancada?\u201d O que voc\u00eas fariam se estivesse sendo\u00a0 arrancado\u00a0 o direito de viver, n\u00e3o apenas a sua morada coletiva, mas principalmente da sua morada interior que \u00e9 o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Todos os territ\u00f3rios ind\u00edgenas no Brasil que n\u00f3s conhecemos s\u00f3 foi demarcado depois da morte e da execu\u00e7\u00e3o\u00a0 de algumas lideran\u00e7as ind\u00edgenas. No territ\u00f3rio Xakriab\u00e1 n\u00e3o \u00e9 diferente. Como n\u00f3s vivemos numa regi\u00e3o no bioma do Cerrado, em \u201987, o territ\u00f3rio s\u00f3 foi demarcado depois do crime contra uma lideran\u00e7a Xakriab\u00e1 e que foi o primeiro crime reconhecido como genoc\u00eddio ind\u00edgena no Brasil. Mas o territ\u00f3rio Xakriab\u00e1 s\u00f3 foi\u00a0 demarcado um ter\u00e7o do territ\u00f3rio origin\u00e1rio e todas as vezes hoje quando a popula\u00e7\u00e3o pergunta pras mulheres e principalmente a juventude, fala, \u201cVoc\u00eas s\u00e3o Xakriab\u00e1? Voc\u00eas sabem nadar? Voc\u00eas vivem do rio? Voc\u00eas vivem da pesca?\u201d,\u00a0 E a maioria da\u00a0 juventude diz\u00a0 que n\u00e3o porque, essa aus\u00eancia do rio, n\u00f3s comparamos como se fosse um filho que \u00e9 retirado de amamentar\u00a0 no peito da m\u00e3e, no aleitamento materno.. N\u00f3s podemos crescer, mas n\u00f3s crescemos contr\u00e1rio, e eu falo que a juventude, as crian\u00e7as s\u00f3 n\u00e3o afogou no rio, porque foi aus\u00eancia, daquilo que n\u00f3s n\u00e3o vivemos no rio, que nos afogou (?). \u00c9 importante dizer isso porque quando a gente fala de mudan\u00e7as clim\u00e1tica, a contribui\u00e7\u00e3o das mulheres ind\u00edgenas para redu\u00e7\u00e3o a velocidade das mudan\u00e7as clim\u00e1tica, eu falo que muito pior do que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, exatamente a velocidade com que est\u00e1 acontecendo a mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>E meu av\u00f4 disse que essa luta nossa, as pessoas falam que n\u00e3o tem muito tempo, ent\u00e3o as pessoas t\u00eam reproduzido a fala que a luta pelo n\u00e3o aceleramento\u00a0 das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, \u00e9 uma luta contra tempo. E meu av\u00f4 disse que n\u00e3o exatamente uma luta contra tempo, \u00e9 uma luta pela retomada do tempo, porque exatamente essa no\u00e7\u00e3o da velocidade do tempo que faz o aceleramento tamb\u00e9m do capitalismo. Ent\u00e3o, quando hoje n\u00f3s povos ind\u00edgenas representamos uma amea\u00e7a pro governo, tanto governo brasileiro, governo Bolsonaro, mas tanto pro capitalismo, \u00e9 porque n\u00f3s apresentamos uma real possibilidade de vida que n\u00e3o \u00e9 controlada pelo tempo. Ent\u00e3o quando n\u00f3s tamb\u00e9m questionamos\u00a0 esse capitalismo e constantemente no congresso nacional no Brasil, somos questionados pelos deputados da bancada ruralista que diz, \u201cPor que voc\u00eas povos ind\u00edgenas s\u00e3o t\u00e3o contra o capitalismo?\u201d e eu falo a pergunta \u00e9 o contr\u00e1rio, assim a resposta tamb\u00e9m: \u201cPor que que a bancada ruralista e o capitalismo \u00e9 t\u00e3o contra os povos ind\u00edgenas?\u201d Porque n\u00e3o necessariamente n\u00f3s representamos uma amea\u00e7a pro capitalismo e para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.\u00a0 Pelo contr\u00e1rio; o capitalismo e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica representa um eminente amea\u00e7a para os povos ind\u00edgenas e para a humanidade.<\/p>\n<p>E pensando nesse capitalismo, eu fico tamb\u00e9m refletindo sobre a monocultura. Quando a gente pensa, por que \u00e9 o consenso para todo mundo que uma comida saud\u00e1vel \u00e9 aquela que tem diversidade na mesa, \u00e9 aquela que tem cor tamb\u00e9m? E por que as pessoas n\u00e3o pensam ou refletem que uma sociedade saud\u00e1vel \u00e9 aquela tamb\u00e9m que tem diversidade? Porque se fala que na monocultura, assim como na minha regi\u00e3o \u00e9 amea\u00e7ada pela planta\u00e7\u00e3o do eucalipto; e se\u00a0 a gente diz que na monocultura do eucalipto possivelmente n\u00e3o v\u00e1 sobreviver nem formiga.<\/p>\n<p>Eu fico pensando se numa sociedade em que n\u00e3o existe diversidade, tamb\u00e9m vai sobreviver com a monocultura de corpos? Eu fico pensando tamb\u00e9m numa universidade que n\u00e3o tem uma diversidade do pensamento. Esse pensamento tamb\u00e9m vai tornar uma terra improdutiva? Isso \u00e9 um problema muito forte porque para mim a responsabilidade de questionar o capitalismo n\u00e3o est\u00e1 apenas nos governos em v\u00e1rios pa\u00edses.<\/p>\n<p>Mas est\u00e1 tamb\u00e9m na mudan\u00e7a de comportamento da sociedade. Porque quanto de n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00f3s fizemos a pergunta, quanto de voc\u00eas j\u00e1 fez a pergunta: Quantos professores ind\u00edgenas voc\u00eas t\u00eam na universidade? Quanto de voc\u00eas fizeram a pergunta, tamb\u00e9m, hoje estaria disposta tamb\u00e9m de fazer esta pergunta, em quantas ind\u00edgenas, mulheres ind\u00edgenas, voc\u00eas j\u00e1 votaram? Ent\u00e3o, para pensar na mudan\u00e7a tamb\u00e9m e a desigualdade que acontece, porque a grande explica\u00e7\u00e3o para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que n\u00f3s vivenciamos hoje, \u00e9 porque matou a diversidade. Certamente se nos Estados Unidos tivesse a diversidade que existia antes, de povos ind\u00edgenas, n\u00f3s n\u00e3o estar\u00edamos nesse momento do aceleramento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Toda sociedade que mata a diversidade de corpos, certamente, est\u00e1 numa amea\u00e7a da monocultura de corpos e do pensamento.<\/p>\n<p>Eu tenho dito que para isso, para reverter esse\u00a0 processo do aceleramento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, n\u00e3o d\u00e1 para curar o mal com a mesma enfermidade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o se pode curar uma terra com mesmo veneno que fez ela ser morta. Ent\u00e3o eu tenho pensado que assim tamb\u00e9m quando a gente pensa em questionar a estrutura tamb\u00e9m: da pol\u00edtica, dos processos de pensar a quest\u00e3o ambiental tanto no Brasil quanto fora do Brasil; principalmente questionar a exporta\u00e7\u00e3o que vem em massa e que tem destru\u00eddo a vida dos povos ind\u00edgena. Para questionar e fazer uma luta anti sist\u00eamica, eu fico pensando que n\u00f3s temos de questionar a matriz colonizadora; n\u00e3o exatamente a matriz colonizadora, seria uma patria colonizadora, porque vem do patriarcado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o precisamos pensar, quais s\u00e3o as contribui\u00e7\u00f5es dos corpos das mulheres? Porque a gente tem falado que o s\u00e9culo XXI \u00e9\u00a0 de muitas outras coisas, mas, \u00e9 principalmente das mulheres e das mulheres ind\u00edgenas, e \u00e9 nisso que o fortalecimento das mulheres ind\u00edgenas evoca as for\u00e7as da luta porque, quando as pessoas perguntam, constantemente, \u201cO que voc\u00eas t\u00eam feito para o n\u00e3o-aceleramento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?\u201d<\/p>\n<p>N\u00f3s temos feito, com nossa pr\u00f3pria vida, defendendo o territ\u00f3rio. Porque n\u00f3s povos ind\u00edgenas, eu tenho dito que n\u00f3s somos o term\u00f4metro do mundo. O dia que n\u00f3s, os povos ind\u00edgenas parar de respirar no nosso territ\u00f3rio, toda a humanidade tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o vai conseguir mais respirar. Em vez de responder a essa pergunta, que \u00e9 t\u00e3o exaustiva, qual \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas, eu tenho dito que n\u00f3s povos ind\u00edgenas, as mulheres ind\u00edgenas, queremos ser reconhecidas na verdadeira import\u00e2ncia; porque n\u00f3s somos as primeiras cientistas. N\u00f3s somos como se fosse as doutoras pneumologistas, porque n\u00f3s cuidamos do pulm\u00e3o do mundo. \u00c9 importante fazer essa reflex\u00e3o porque principalmente quando matou a Paulino Guajajara, como apresentou no v\u00eddeo, as pessoas n\u00e3o fazem essa reflex\u00e3o.<\/p>\n<h4>11:00 &#8211; 20:00 &#8212; transcrita por Alexandra Stephens e Sasha Zeidenberg<\/h4>\n<p>\u00c9 importante fazer essa reflex\u00e3o porque principalmente quando matou Paulo \u201cPaulino\u201d Guajajara, como apresentou no v\u00eddeo, as pessoas n\u00e3o fazem essa reflex\u00e3o. Pensam que quem sofreu com essa dor da\u00a0 pena foi apenas os povos ind\u00edgenas do Brasil, foi apenas o povo Guajajara. Na verdade, assim como no ano\u00a0 passado foram tombadas 138 lideran\u00e7as ind\u00edgenas, a cada vez que tomba uma lideran\u00e7a ind\u00edgena, s\u00e3o milh\u00f5es de \u00e1rvores tamb\u00e9m, que passam a ser tombadas. Isso atinge a respira\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer que se as pessoas n\u00e3o sentem sensibilizadas e n\u00e3o est\u00e3o na luta juntas com os povos ind\u00edgenas porque pensam que n\u00e3o est\u00e1 sujeitas a morrer pelos conflitos territoriais igual que todos n\u00f3s povos ind\u00edgenas est\u00e3o sujeitos morrer, n\u00f3s vamos morrer por algo em com\u00fan, que \u00e9 o pelo veneno que chega na nossa mesa.<\/p>\n<p>Porque alimentar a a\u00e7\u00e3o deveria ser sin\u00f3nimo exatamente a alimentar o corpo, mas hoje alimentar tamb\u00e9m tem sido sin\u00f3nimo de envenenar.<\/p>\n<p>E as pessoas perguntam: \u201caonde esta luta com o capitalismo come\u00e7a? Onde o capitalismo come\u00e7a? O agroneg\u00f3cio come\u00e7a?\u201d N\u00f3s damos de cara com o agroneg\u00f3cio todo dia na primeira refei\u00e7\u00e3o do dia. Ela come\u00e7a pelos pratos que chegam na nossa mesa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, requer\u00a0 pensar numa luta de sistema mas principalmente numa luta tamb\u00e9m comportamental.<\/p>\n<p>E pensando nessa quest\u00e3o do capitalismo, no Brasil, semana passada, o governo brasileiro diz que \u201cos povos ind\u00edgenas querem ser igual a n\u00f3s; est\u00e3o passando a ser humano mais evolu\u00eddo igual a n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>E quando faz essa pergunta, eu falo que n\u00f3s povos ind\u00edgenas, n\u00f3s mulheres ind\u00edgenas, se levantamos muito mais forte agora porque a primeira pessoa que o governo Bolsonaro atacou foi uma mulher. E as pessoas perguntaram, \u201cmas quem foi essa mulher?\u201d<\/p>\n<p>E eu falei, foi a terra. E quando atinge a mulher terra, n\u00f3s precisamos nos\u00a0 levantar porque certamente o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas a nossa vida, mas principalmente o nosso modo de vida.<\/p>\n<p>Porque tem matado os povos ind\u00edgenas n\u00e3o apenas quando tem executado as lideran\u00e7as ind\u00edgenas, mas quando executa a nossa identidade, n\u00f3s j\u00e1 morremos duas vezes.<\/p>\n<p>\u00c9 importante dizer isso porque, antes, todo o agroneg\u00f3cio, a bancada ruralista, queria apenas executar os corpos ind\u00edgenas. Assim tamb\u00e9m como aconteceu tamb\u00e9m em 1500, hoje apenas com armas sofisticadas.<\/p>\n<p>Mas agora, a arma que tem executado os povos ind\u00edgenas tamb\u00e9m tenta matar as nossas vozes.<\/p>\n<p>E n\u00e3o lutar com a mesma arma do inimigo, com o que \u00e9 a arma do fogo, n\u00e3o significa que n\u00f3s povos ind\u00edgenas est\u00e3o desarmados porque n\u00f3s lutamos exatamente com a for\u00e7a da espiritualidade que \u00e9 alimentada pelo territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>E n\u00f3s falamos que n\u00f3s desconfiamos de qualquer projeto progresso da morte, de evolu\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o consegue produzir nem seu pr\u00f3prio alimento.<\/p>\n<p>Porque na jornada que n\u00f3s fizemos, \u201cSangue ind\u00edgena, nenhuma gota a mais\u201d, na Europa, as pessoas falaram, \u00e9 aqui a \u00fanica fruta nativa daqui \u00e9 essa porque tudo isso \u00e9 importado de outros pa\u00edses porque a gente n\u00e3o consegue produzir o pr\u00f3prio alimento.<\/p>\n<p>14:39: Ent\u00e3o, quando falo que n\u00f3s povos ind\u00edgenas n\u00e3o contribu\u00edmos para que o Brasil seja um pa\u00eds de primeiro mundo, n\u00f3s falamos que \u00e9 muito mais importante reconhecer que aqui no Brasil n\u00f3s somos os primeiros, n\u00f3s somos os origin\u00e1rios..<\/p>\n<p>E \u00e9 por conta desse modo de vida que a humanidade ainda n\u00e3o foi exterminada.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 muito importante pensar n\u00e3o exatamente no meio ambiente mas na totalidade da vida, da natureza do territ\u00f3rio como parte e a contribui\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>E nesse sentido, quando n\u00f3s tamb\u00e9m questionamos a universidade, o que \u00e9 ser respons\u00e1vel pelo epistemic\u00eddio porque tentaram tamb\u00e9m matar nosso modo de conhecimento.<\/p>\n<p>E hoje n\u00f3s chegamos na universidade e as pessoas perguntam, \u201cComo que se sente sendo a primeira ind\u00edgena a chegar na universidade? S\u00f4nia Guajajara, como voc\u00ea se sente sendo a primeira ind\u00edgena a lan\u00e7ar uma candidatura para ser co-presidente? Jo\u00eania Wapichana, como voc\u00ea se sente sendo a primeira mulher ind\u00edgena chegar no congresso nacional? Mulheres ind\u00edgenas, como que voc\u00eas se sentem?\u201d N\u00f3s falamos que n\u00f3s n\u00e3o sentimos mais importantes por ser as primeiras. Na verdade, nos d\u00e1 uma responsabilidade redobrada de questionar: \u201cPor que que no pleno s\u00e9culo XXI s\u00f3 agora ent\u00e3o n\u00f3s somos as primeiras?\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 muito importante fazer essa reflex\u00e3o porque n\u00f3s povos ind\u00edgenas com nossa forma de conhecimento, n\u00f3s representamos uma forma real de uma epistemologia de cura. N\u00e3o \u00e9 apenas o planeta, o financeiro, o que \u00e9 coisa financeira, n\u00e3o \u00e9 apenas a pol\u00edtica que est\u00e1 em crise. A ci\u00eancia est\u00e1 em crise.<\/p>\n<p>E n\u00f3s povos ind\u00edgenas falamos que nenhum governo, nem projeto de estado, vai conseguir acabar com ci\u00eancia porque a ci\u00eancia, ela est\u00e1, nasce dentro de n\u00f3s, e nos nossos territ\u00f3rios ind\u00edgenas. Ent\u00e3o nunca vai ser executada.<\/p>\n<p>Nem mesmo fogo que queima Amaz\u00f4nia, nem mesmo fogo que queima o Cerrado e que queimou corpos ind\u00edgenas em Bras\u00edlia,\u00a0 como \u00e9 o caso de uma lideran\u00e7a ind\u00edgena Galdino Patax\u00f3, n\u00e3o consegue queimar a nossa mem\u00f3ria e a for\u00e7a da oralidade dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>E \u00e9 muito importante porque n\u00f3s falamos que n\u00f3s mulheres ind\u00edgenas somos o \u00fatero da terra, ent\u00e3o quando existe autoriza\u00e7\u00e3o do governo de estado, para flexibiliza\u00e7\u00e3o do armamento, n\u00f3s mulheres ind\u00edgenas somos as principais miras, porque certamente\u00a0 a flexibiliza\u00e7\u00e3o do armamento atinge nossos \u00fateros e o \u00fatero da terra, e principalmente compromete as gera\u00e7\u00f5es do futuro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o para a gente falar de justi\u00e7a ambiental, de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, n\u00f3s temos que entender que hoje a possibilidade, a melhor sa\u00edda, a grande estrat\u00e9gia est\u00e1 no fortalecimento e na recomenda\u00e7\u00e3o que demarcar os territ\u00f3rios ind\u00edgenas n\u00e3o \u00e9 mais um bem emprestado apenas dos povos ind\u00edgenas, mas um bem emprestado para a humanidade.<\/p>\n<p>E neste sentido j\u00e1 vou encerrar dizendo que n\u00f3s povos ind\u00edgenas fazemos esse levante da luta, e n\u00f3s mulheres ind\u00edgenas continuamos a resistir porque n\u00f3s j\u00e1 decidimos que se for para morrer, que seja porque n\u00e3o estamos falando e n\u00e3o porque permanecemos em sil\u00eancio, porque o sil\u00eancio historicamente matou muitas mulheres ind\u00edgenas e continuou matando um\u00a0 continente inteiro, ent\u00e3o \u00e9 por isso que n\u00f3s lutamos, para n\u00e3o ter genoc\u00eddio dos povos ind\u00edgenas no Brasil, lutamos contra o ecoc\u00eddio na humanidade, e n\u00f3s fazemos essa defensa, a partir da ci\u00eancia do territ\u00f3rio porque n\u00f3s acreditamos que n\u00f3s continuamos a aprender muito mais com \u00e1rvore\u00a0 viva do que o papel morto. Certamente o dia que conseguir queimar todos\u00a0 os pap\u00e9is, vai ser a nossa oralidade e a nossa mem\u00f3ria que vai ter a capacidade de resistir. Obrigada.<\/p>\n<p>S\u00f4nia Bone Guajajara:<\/p>\n<p>Ol\u00e1, gente. Boa noite a todas, boa noite a todos!<\/p>\n<p>(Plateia: Boa noite!)<\/p>\n<p>Aah, boa noite! Bom, eu quero agradecer muito pelo convite, que foi feito para n\u00f3s, para a gente estar aqui hoje, compartilhando a nossa hist\u00f3ria, a nossa luta, tudo que a gente vem fazendo no Brasil, uma luta que a gente faz agora, mas que uma luta que j\u00e1 dura 520 anos.<\/p>\n<h4>20:00 &#8211; 29:00 &#8212;\u00a0 transcrita por Maddie Haines e Emily Jaruszewski<\/h4>\n<p>&#8230;A gente vem fazendo no Brasil, n\u00e9, uma luta que a gente faz agora, mas que \u00e9 uma luta que j\u00e1 dura quinhentos e vinte anos. A nossa presen\u00e7a aqui, a nossa presen\u00e7a no Brasil, j\u00e1 simboliza, n\u00e9, j\u00e1 mostra a nossa resist\u00eancia. Porque se n\u00e3o f\u00f4ssemos um povo t\u00e3o resistente, a gente j\u00e1 teria sido exterminado, n\u00e9.<\/p>\n<p>A gente j\u00e1 n\u00e3o existia\u00a0 mais. Ent\u00e3o falar da nossa hist\u00f3ria \u00e9 rememorar toda uma tristeza, uma dor, que foi sofrida por todos nossos antepassados, n\u00e9, por muitos povos, por muitas mulheres que foram estupradas, n\u00e9, com a coloniza\u00e7\u00e3o, todo o per\u00edodo colonial, com a ditadura, n\u00e9, para que a gente pudesse hoje se levantar e dizer que a gente j\u00e1 n\u00e3o aceita mais. Nenhum tipo de coloniza\u00e7\u00e3o, nenhum tipo de estupro, e n\u00e3o um tipo mais de imposi\u00e7\u00e3o,nas nossas vidas. E quando a gente se levanta e segue na luta, a gente n\u00e3o t\u00e1 trazendo benef\u00edcio somente para n\u00f3s. A gente t\u00e1 trazendo benef\u00edcio para o\u00a0 mundo inteiro. Porque a nossa luta, hoje em especial, \u00e9 uma luta contra esse modelo econ\u00f4mico que \u00e9 altamente predat\u00f3rio, que destr\u00f3i toda a m\u00e3e terra, acaba com toda a biodiversidade, n\u00e9, e tenta acabar com a nossa diversidade,acabar com nossos modos de vida. E por fazer essa luta, esse enfrentamento todo, n\u00e9, a gente \u00e9 perseguida. A gente \u00e9 assassinada. A gente \u00e9 criminalizada, a gente \u00e9 presa todos os dias.<\/p>\n<p>Porque a luta que a gente faz confronta diretamente o poder econ\u00f4mico e o poder pol\u00edtico. E s\u00e3o for\u00e7as muito poderosas que sempre se articularam junto para acabar com qualquer um que passasse na sua frente.<\/p>\n<p>E hoje n\u00f3s somos vistos como esse empecilho, esse empecilho ao progresso, esse empecilho ao desenvolvimento. Ent\u00e3o a gente segue dizendo que a gente \u00e9 mesmo contra o desenvolvimento.<\/p>\n<p>Porque o desenvolvimento para n\u00f3s, ele s\u00f3 serviria se conseguisse trazer as pessoas junto. E o desenvolvimento que se h\u00e1 adotado \u00e9 uma forma de excluir as pessoas, de aumentar cada vez mais a desigualdade, de colocar cada vez mais quem n\u00e3o tem, sempre quem n\u00e3o tem, n\u00e9, recursos materiais \u00e0 margem de todos os processos. E tentam fazer isso com a gente todos os dias. No Brasil, isso\u00a0 se intensifica com a elei\u00e7\u00e3o do presidente Bolsonaro, onde colocam os povos ind\u00edgenas como seus inimigos n\u00famero um,colocam mulheres, n\u00e9, pobres da periferia, negros e negras, n\u00e9, todos nessa situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade.<\/p>\n<p>E a gente segue se articulando porque a gente entende que a luta dos povos ind\u00edgenas n\u00e3o pode mais ser uma luta isolada.\u00a0 N\u00f3s temos que estar conectados para a gente fortalecer esses que est\u00e3o sendo, que est\u00e3o tendo seus direitos retirados, para juntos a gente fazer esse enfrentamento.<\/p>\n<p>A terra hoje se tornou o principal objeto de disputa, o principal objeto de disputa pelo poder\u00a0 pol\u00edtico e pelo poder econ\u00f4mico. E n\u00f3s fazemos uma luta constante. N\u00e3o pela terra, mas pelo territ\u00f3rio. Pela m\u00e3e terra porque para n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 simplesmente dizer terra como um bem f\u00edsico, um bem que se vende, um bem que se negocia.<\/p>\n<p>N\u00f3s tratamos a terra, n\u00e9, como a nossa m\u00e3e. E a gente tem dito sempre para todo mundo, n\u00e9, quem \u00e9 aqui que tem coragem de\u00a0 negociar a sua m\u00e3e? De vender a sua m\u00e3e? De destruir a sua m\u00e3e? Algu\u00e9m tem coragem? De fazer isso? N\u00e3o t\u00eam, creio que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00f3s tratamos a terra com essa mesma rela\u00e7\u00e3o. Terra para n\u00f3s \u00e9 m\u00e3e, \u00e9 que d\u00e1 vida, \u00e9 que d\u00e1 a alimento, \u00e9 que d\u00e1 o sustento, \u00e9\u00a0 que d\u00e1 tudo que a gente precisa. E por ter essa rela\u00e7\u00e3o como uma rela\u00e7\u00e3o natural \u00e9 que a gente n\u00e3o permite essa destrui\u00e7\u00e3o da m\u00e3e terra. E quando a gente luta por um territ\u00f3rio n\u00f3s estamos lutando por um espa\u00e7o que n\u00f3s tamb\u00e9m temos essa rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o ali, somente de um\u00a0 contato, de um lugar para a gente ficar, mas \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m com nossa ancestralidade, com nossos antepassados, com nossa hist\u00f3ria, e com nossos encantados, que est\u00e3o ali, que n\u00f3s protegem), e que nos mant\u00eam sempre nessa conex\u00e3o, o que d\u00e1 for\u00e7a para a gente seguir lutando.<\/p>\n<p>E o territ\u00f3rio para n\u00f3s \u00e9 esse lugar, que tem o sagrado, que tem a \u00e1gua, que tem as \u00e1rvores, que tem os animais, e que tem o ar que a gente precisa para a gente respirar. E \u00e9 por isso que onde tem a presen\u00e7a ind\u00edgena, tem territ\u00f3rio, tem floresta, tem biodiversidade preservada. Onde tem a presen\u00e7a ind\u00edgena, tem \u00e1gua limpa, onde tem a presen\u00e7a ind\u00edgena, tem alimento saud\u00e1vel, sem agrot\u00f3xico. Ent\u00e3o \u00e9 por isso que a gente segue nessa defesa, porque n\u00f3s acreditamos que o que n\u00f3s estamos fazendo \u00e9 certo. E \u00e9 por isso a gente n\u00e3o teme de enfrentar nenhum governo. Porque n\u00f3s n\u00e3o somos obrigados a aceitar nenhuma pol\u00edtica injusta,nenhuma lei injusta que venha querer acabar com a nossa vida, acabar com nossa hist\u00f3ria, acabar com nosso modo de vida. Ent\u00e3o n\u00f3s sempre, n\u00e9, n\u00f3s desde mil quinhentos quando os europeus chegaram no Brasil, que o plano de desenvolvimento econ\u00f4mico, ou de desenvolvimento nacional do pa\u00eds sempre teve como base o exterm\u00ednio dos povos ind\u00edgenas. Sempre teve como base a explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, n\u00e9, ent\u00e3o sempre teve como base toda essa pol\u00edtica de destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que nosso povo foi totalmente reduzido, n\u00e9, de cinco milh\u00f5es estimados &#8212; na escrita, porque a gente acredita que eram muito mais de cinco milh\u00f5es, n\u00e9. Hoje no Brasil n\u00f3s somos menos de um milh\u00e3o segundo o \u00faltimo censos do IBGE, do instituto de pesquisa. No Brasil n\u00f3s somos hoje, n\u00e9, novecentos e dezessete mil ind\u00edgenas contados. N\u00e3o sei, deve ter mais, n\u00e9, eu n\u00e3o fui contada, tu foi contada? Deve ter mais, n\u00e9. Ent\u00e3o n\u00f3s somos novecentos e dezessete mil, segundo o \u00faltimo censo. N\u00f3s conseguimos ainda manter 274 l\u00ednguas distintas faladas no Brasil, embora tenham\u00a0 conseguido acabar com muitas, mas n\u00f3s ainda falamos 274 l\u00ednguas em todo pa\u00eds.\u00a0 N\u00f3s ainda somos 305 povos ind\u00edgenas diferentes,trezentos e cinco povos que est\u00e3o distribu\u00eddos nos 27 estados.\u00a0 E somos obrigadas ainda a escutar todos os dias por onde a gente passa l\u00e1 que os ind\u00edgenas do Brasil est\u00e3o na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<h4>29:00-38:00 &#8212; transcrita por Amanda Maia e Melisa Aguila Rua<\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nos vinte e sete estados e somos obrigadas ainda a escutar todos os dias por onde a gente passa l\u00e1 que os ind\u00edgenas do Brasil est\u00e3o na Amaz\u00f4nia, que s\u00f3 tem ind\u00edgena na Amaz\u00f4nia. Porque a ideia que se tem de ind\u00edgena ainda \u00e9 como um selvagem ou \u00e9 como ainda aquele que tem que andar nu, que tem que andar no tempo todo ca\u00e7ando e pescando, como que vai continuar ca\u00e7ando e pescando se est\u00e3o tirando de n\u00f3s esse direito de ca\u00e7ar, de pescar, de nadar? N\u00f3s somos obrigados a nos interagir com outra cultura, a viver uma outra vida que para n\u00f3s sim essa intera\u00e7\u00e3o \u00e9 boa, ela \u00e9 permitida, \u00e9 saud\u00e1vel porque a gente tira aquilo que a gente precisa n\u00e9 mas mant\u00e9m a nossa cultura.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Agora, o que o governo quer fazer hoje \u00e9 a tal da integra\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o quando ele fala a integra\u00e7\u00e3o, ele quer dizer que n\u00f3s temos que largar a nossa cultura o nosso modo de vida, e nos integrar a uma outra cultura e quando ele fala isso est\u00e1 dizendo que tem uma cultura que \u00e9 melhor que a outra, uma cultura se sobrep\u00f5e sobre a outra e que n\u00f3s somos obrigados a largar nossa. Que a nossa n\u00e3o presta, que nossa \u00e9 ruim, a nossa atrapalha e n\u00f3s temos que aqui adotar uma outra cultura, um outro modo de vida. Ent\u00e3o contra isso \u00e9 tamb\u00e9m que n\u00f3s lutamos hoje, contra essa integra\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo colocada, enunciada pelo governo Bolsonaro. Al\u00e9m dos 305 povos contatados&#8211; claro cada um diferentes n\u00edveis; n\u00f3s temos povos que tem 500 anos em contato com a sociedade n\u00e3o ind\u00edgena, n\u00f3s temos povos que t\u00eam em m\u00e9dia 100 anos de contato n\u00e9, os que a gente chama de recente contato, n\u00f3s temos povos que est\u00e3o totalmente em contexto urbano que vivem na cidade que t\u00e1 ali mas \u00e9 ind\u00edgena e n\u00f3s temos povos que n\u00e3o tem nenhum contato ainda com a sociedade nem mesmo com n\u00f3s ind\u00edgenas que estamos ali no mesmo territ\u00f3rio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">J\u00e1 s\u00e3o confirmados 114 grupos de povos que vivem em isolamento volunt\u00e1rio que o estado insiste em chamar de povos isolados e n\u00f3s chamamos de povos aut\u00f4nomos porque eles est\u00e3o ali por decis\u00e3o pr\u00f3pria por escolha deles porque se eles quisessem o contato eles j\u00e1 teriam se aproximado eles j\u00e1 teriam vindo procurar ajuda, ent\u00e3o n\u00f3s temos que respeitar essa decis\u00e3o deles. O que n\u00f3s temos que fazer \u00e9 lutar pela garantia do territ\u00f3rio para que eles possam continuar ali para que eles possam continuar com seu modo de vida. Ent\u00e3o, por isso n\u00f3s tamb\u00e9m fazemos essa luta por eles que n\u00e3o est\u00e3o para poder falar e exigir essa prote\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. Ent\u00e3o tudo isso faz com que, a gente fa\u00e7a essa luta constante contra a explora\u00e7\u00e3o ilegal de madeira nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, contra a explora\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, contra a expans\u00e3o agr\u00edcola do agroneg\u00f3cio por meio das monoculturas que \u00e9 o que todo dia n\u00f3s estamos agora n\u00e9 tendo que assistir medidas no Congresso Nacional que se tenta aprovar leis para autorizar o desmatamento para a expans\u00e3o agr\u00edcola. Ent\u00e3o n\u00f3s fazemos essa luta que n\u00e3o \u00e9 pouca, n\u00e3o \u00e9 pequena, porque a gente mexe com o governo e a gente mexe tamb\u00e9m com os grandes empres\u00e1rios e quando a gente aqui o governo e empres\u00e1rios n\u00f3s estamos lutando tamb\u00e9m contra esse poder econ\u00f4mico que tenta todo dia mostrar que tem que se enriquecer, que tem que ter mais lucro, que essas empresas t\u00eam que explorar mais porque t\u00eam que aumentar a produ\u00e7\u00e3o para o crescimento econ\u00f4mico e a\u00ed com isso faz com que as pessoas tamb\u00e9m est\u00e3o entendendo que o mais importante mesmo \u00e9 o produto interno bruto, \u00e9 o valor do PIB, \u00e9 o valor da bolsa. As pessoas seguem acreditando que o pa\u00eds est\u00e1 bem quando a bolsa est\u00e1 bem quando o PIB est\u00e1 bem e poucas pessoas se perguntam\u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u2026 quantas pessoas est\u00e3o deixando de ter acesso ao alimento por conta dessa expans\u00e3o agr\u00edcola para atender \u00e0s grandes empresas, para atender aos commodities? Quantas pessoas est\u00e3o deixando de ter acesso a \u00e1gua limpa por conta da explora\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio e esse min\u00e9rio contaminou a \u00e1gua, que passa no seu territ\u00f3rio, que passa na sua cidade? Quantas pessoas olham para os rios polu\u00eddos nas ruas das cidades, seja em que lugar for, e se comovem com isso? Quantas pessoas olham aquele rio e imaginam que ele poderia ser um rio limpo para todas as pessoas ter acesso? Quantas pessoas se comovem quando veem os governos, o poder p\u00fablico destruindo, cortando as \u00e1rvores da sua cidade para fazer uma pra\u00e7a, para fazer um estacionamento? Quantas pessoas se comovem ou se sentem tamb\u00e9m respons\u00e1veis para lutar contra isso?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ent\u00e3o, muitas pessoas, e a gente mesmo que est\u00e1 aqui, a gente sempre pensa que as respostas est\u00e3o nas altas-tecnologias para resolver a crise econ\u00f4mica, para resolver as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, muita gente espera sempre que as altas-tecnologias v\u00e3o resolver. Mas a gente sempre se pergunta, n\u00e9, qual \u00e9 o novo ser humano que a gente quer para resolver tudo isso? O que tem que se fazer para a gente ter humanos que possam se perceber tamb\u00e9m respons\u00e1veis, para conter essas mudan\u00e7as, para conter as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O que que se tem que fazer para descarbonizar as mentes dos governantes, mas tamb\u00e9m restaurar o cora\u00e7\u00e3o das pessoas. Como cada um se percebe dentro dessa luta?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A cada dia falam para n\u00f3s novas palavras. Eu venho l\u00e1 da aldeia, eu venho da terra ind\u00edgena Ararib\u00f3ia. At\u00e9 quinze anos de idade, eu nunca tinha ido a uma cidade. Eu nunca tinha visto um posto de luz el\u00e9trica. At\u00e9 quinze anos eu nunca tinha visto asfalto. E eu fui para a cidade grande porque eu sempre tive vontade de ir. Desde menina eu queria, eu sonhava em sair, eu sonhava em viajar, porque eu sabia que se eu continuasse ali naquele meu lugar daquele jeito, eu ia ser como todo mundo. E por mais que eu gostasse do meu lugar, de estar perto da minha fam\u00edlia, mas eu me sentia muito inquieta. Porque eu sabia que eu ali, eu n\u00e3o ia poder ajudar, n\u00e3o ia poder modificar ningu\u00e9m, porque eu tamb\u00e9m estava aceitando sempre as mesmas coisas. E eu sempre quis sair, sempre quis conhecer o mundo. E eu conheci o mundo mesmo antes de sair para ele porque eu lia muito e eu j\u00e1 via as hist\u00f3rias. Ent\u00e3o, quando eu vim para os Estados Unidos, pela primeira vez, parecia que eu j\u00e1 conhecia tudo, porque eu j\u00e1 conhecia muito dessa hist\u00f3ria, inclusive do exterm\u00ednio dos povos ind\u00edgenas nesse pa\u00eds, como o governo tratava os povos ind\u00edgenas aqui. Ent\u00e3o, quando eu sa\u00ed, eu descobri que tinha muita coisa, muita coisa para ser feita, para se mudar, e que eu n\u00e3o ia conseguir fazer isso sozinha. Que a gente tinha que juntar mais gente, que a gente tinha que trazer mais pessoas. E foi com esse sentimento de que muitos povos ind\u00edgenas ainda n\u00e3o tinham sua terra demarcada, \u00e9 que eu me propus a organizar coletivos e a gente fortalecer o movimento ind\u00edgena e emplacar essa luta em defesa dos territ\u00f3rios. E n\u00f3s seguimos, a partir do movimento ind\u00edgena no estado, na regi\u00e3o, nacional, e hoje a gente chega no internacional&#8230;<\/span><\/p>\n<h4>38:00 &#8211; 47:00 &#8212; transcrita por Isabel Teixiera e Michelle Tsai Gomez<\/h4>\n<p>E n\u00f3s seguimos, n\u00e9, a parte do movimento ind\u00edgena no estado, na regi\u00e3o, nacional, e hoje a gente chega no internacional falando da presen\u00e7a ind\u00edgena e do sentido do nosso modo de vida. N\u00f3s somamos hoje cinco por cento da popula\u00e7\u00e3o mundial, n\u00f3s ind\u00edgenas no mundo inteiro, n\u00e9. N\u00f3s somamos cinco por cento da popula\u00e7\u00e3o mundial. Esse cinco por cento consegue proteger 82% da biodiversidade viva que ainda existe no mundo. 82%!<\/p>\n<p>N\u00f3s ainda conseguimos proteger a maior parte da \u00e1gua doce que h\u00e1 no planeta, n\u00e9, que est\u00e1 na Amaz\u00f4nia. O Brasil tem outros dois maiores aqu\u00edferos de \u00e1gua, n\u00e9, um na Amaz\u00f4nia e outro no sul e sudeste, e onde est\u00e3o esses aqu\u00edferos tem a presen\u00e7a, n\u00e9, e tem esses territ\u00f3rios ind\u00edgenas. E a\u00ed as pessoas perguntam para n\u00f3s, e l\u00e1 no Brasil em especial, \u201cNossa, esses \u00edndios t\u00eam muita terra. Para que que os \u00edndios querem tanta terra?\u201d N\u00e9? No Brasil n\u00f3s somos menos que 1% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Menos que 1%. N\u00f3s ocupamos 13% do territ\u00f3rio nacional. \u00c9 muito? Voc\u00eas acham muito? Parece muito, n\u00e9?<\/p>\n<p>Os ruralistas dizem todo dia para n\u00f3s que \u00e9 muito. Todos os dias eles dizem que \u00e9 demais, Bolsonaro est\u00e1 dizendo que a gente n\u00e3o precisa dessa terra, que a demarca\u00e7\u00e3o da terra no Brasil \u00e9 abusiva, n\u00e9? E a\u00ed quando voc\u00ea faz a conta aoinverso, n\u00e9, voc\u00ea v\u00ea que um por cento, um por cento da popula\u00e7\u00e3o, n\u00e9, ruralista, eles det\u00eam 46% da propriedade rural. Quarenta e seis por cento eles t\u00eam, e como \u00e9 que esse n\u00famero n\u00e3o \u00e9 grande? N\u00e3o \u00e9 muito, para o mesmo um por cento, n\u00e9? E a\u00ed voc\u00ea pode comparar e olhar, n\u00e9? O que \u00e9 que tem na terra ind\u00edgena nesses treze por cento? Que \u00e9 que tem aqui na terra ind\u00edgena? Alguem pode me ajudar? A imaginar e lembrar? Que \u00e9 que tem aqui?<\/p>\n<p>(Plateia: Floresta)<\/p>\n<p>Tem floresta.<\/p>\n<p>(Plateia: Biodiversidade)<\/p>\n<p>Biodiversidade.<\/p>\n<p>(Plateia: Rios)<\/p>\n<p>\u00c1gua limpa as nascentes. Est\u00e1 tudo aqui nesse 13%, mais \u00e9 pequeno, \u00e9 pouco.<\/p>\n<p>Nesses 46% aqui, voc\u00ea v\u00ea o qu\u00ea? Voc\u00ea v\u00ea o qu\u00ea? Gado, soja, eucalipto, cana de a\u00e7\u00facar, n\u00e9. Voc\u00ea v\u00ea que h\u00e1 as monoculturas. E agora a gente pode comparar esse lado com esse lado aqui. O que cada um oferece para o planeta, n\u00e9? Esse aqui tu pega o eucalipto, ele vai sujar a \u00e1gua onde ele est\u00e1 n\u00e9, traz para ele, e seca tudo quanto \u00e9 nascente, seca tudo quanto \u00e9 rio, igarap\u00e9, e riacho. E a\u00ed voc\u00ea pega a produ\u00e7\u00e3o de soja. O que que ela oferece? Veneno. Agrot\u00f3xico que todo mundo que est\u00e1\u00a0 em volta \u00e9 contaminado por esse veneno,que \u00e9 ali aplicado. Hoje no Brasil se aplica de helic\u00f3ptero, joga de cima e atinge todo mundo que est\u00e1: as pessoas, a \u00e1gua, tudo que est\u00e1 ali, n\u00e9?<\/p>\n<p>E a\u00ed voc\u00ea vem aqui de novo para a terra ind\u00edgena, o que \u00e9 que a gente tem? A floresta em p\u00e9, que garante, a regula\u00e7\u00e3o da chuva, que manda a chuva para todo lugar. As floresta em p\u00e9 que segura o carbono, n\u00e9, o g\u00e1s carbono que era para ser jogado para a atmosfera est\u00e1 ali, guardado. Evitando ainda que esses gases sejam emitidos, e ainda consegue equilibrar, n\u00e9, todo o oxig\u00eanio, que joga n\u00e9, n\u00e3o s\u00f3 l\u00e1 mas para o mundo todo, como \u00e9 global n\u00e9,\u00a0 circula, roda, chega para todo mundo, n\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00f3s precisamos dessas florestas em p\u00e9,para garantir o ar. Essa ali falou que n\u00f3s somos os pneumologistas do mundo, que n\u00f3s temos o maior pulm\u00e3o do mundo. Todo mundo olha para a Amaz\u00f4nia, todo mundo olha, mas a maioria das pessoas que olha a Amaz\u00f4nia olha ali as floresta, o verde, e at\u00e9 os bichos n\u00e9? Mas pouca gente olha que tem gente l\u00e1 tamb\u00e9m. Pouca gente imagina que somos n\u00f3s ali com nosso modo de vida, que garante ainda esta floresta em p\u00e9,que garante a prote\u00e7\u00e3o dessa biodiversidadedesse lugar. Poucas pessoas conseguem saber que somos n\u00f3s, com nosso modo de vida, \u00e9 que est\u00e1 sustentando ali.<\/p>\n<p>E a gente sustenta como? Sustenta, com essa luta que a gente trava todo dia, l\u00e1 na porta do Congresso Nacional,levando bala de borracha, levando o spray de pimenta, n\u00e9 apanhando da pol\u00edcia, sendo preso. Mas a gente vai para l\u00e1. Ent\u00e3o n\u00f3s estamos pagando com as nossas pr\u00f3prias vidas.<\/p>\n<p>Para a gente pode manter ali ainda viva essa biodiversidade. Ent\u00e3o \u00e9 por isso que a gente n\u00e3o aceita que as pessoas olhem para a gente, e fiquem com pena. A gente n\u00e3o quer que ningu\u00e9m tenha pena de n\u00f3s. E n\u00e3o olha para a gente como coitadinhos, ou como selvagem como Bolsonaro diz, ou como n\u00e3o humanos como ele diz tamb\u00e9m, n\u00e9?<\/p>\n<p>Mas a gente quer que as pessoas olhem para a gente, pela pot\u00eancia que n\u00f3s somos, para garantir a vida no planeta, para garantir a \u00e1gua que chega para todo mundo, a \u00e1gua limpa, a chuva, o ar que todo mundo respira. \u00c9 claro que a gente sabe, n\u00f3s estamos contando o que \u00e9 da nossa parte, do que a gente faz, do que a gente proteja, da luta que a gente trava, n\u00e9? \u00c9 claro que tem outros e outros fatores que ajudam a garantir esse equil\u00edbrio, que ajuda a regular chuva, mas n\u00f3s aqui tamb\u00e9m somos uma parte dessa pot\u00eancia.<\/p>\n<p>E n\u00f3s estamos sempre falando para as pessoas que n\u00e3o \u00e9 n\u00f3s que somos parte do Brasil. O Brasil \u00e9 que \u00e9 parte de n\u00f3s. Que n\u00f3s somos os primeiros ali. O Brasil \u00e9 parte de n\u00f3s. E n\u00f3s queremos sim fazer essa disputa, essa disputa pelo Brasil. Essa disputa pelo nosso lugar. E a gente faz a disputa. Assim. Na luta pol\u00edtica, que a gente faz todo dia, mas a gente est\u00e1 fazendo tamb\u00e9m essa disputa, n\u00e9, de narrativa, nas redes sociais. Se a gente tem internet hoje, se tem acesso tamb\u00e9m n\u00e9 a esse meio de comunica\u00e7\u00e3o, n\u00f3s temos que utilizar dele tamb\u00e9m, para poder dar visibilidade para a realidade ind\u00edgena. O que que a gente faz, e o que que a gente precisa que as pessoas fa\u00e7am para estar junto\u00a0 com a gente. Se as pessoas n\u00e3o conhecem as pessoas n\u00e3o se aproximam. E muita gente olha para n\u00f3s, no governo olham para n\u00f3s como empecilho, olham para n\u00f3s como inimigo, mas muita gente tamb\u00e9m olham para n\u00f3s ainda como selvagem.<\/p>\n<p>E a\u00ed n\u00e3o se aproximam, t\u00eam medo, n\u00e3o querem saber, n\u00e3o querem conhecer, e por isso esse distanciamento. E por esse distanciamento h\u00e1 muita desconhecimentodas pessoas sobre a vida dos povos ind\u00edgenas,no mundo inteiro. E as escolas que deveriam adotar, n\u00e9, materiais para poder trabalhar com os estudantes n\u00e9, em todas as s\u00e9ries, tamb\u00e9m se isentam disso. N\u00e9, e a\u00ed voc\u00ea v\u00ea que as pessoas chegam aos quarenta anos ou cinquenta anos e n\u00e3o sabem nada da realidade ind\u00edgena, n\u00e9? Ent\u00e3o uma das formas da gente poder n\u00e9, das pessoas poderem conhecer melhor a gente seria os estabelecimento de ensino desde as primeiras s\u00e9ries, adotar tamb\u00e9m essa disciplina, n\u00e9, n\u00e3o que a gente seja disciplinados assim.<\/p>\n<h4>47:00 &#8211; 51:00 &#8212; transcrita por Emilia Tamayo<\/h4>\n<p>Adotar disciplinas que falem dos povos ind\u00edgenas. N\u00e9? Quantos s\u00e3o? Como vivem? Onde est\u00e3o? O que que fazem? E principalmente, falar dos conflitos existentes. N\u00e3o \u00e9 mais falar hoje dos povos ind\u00edgenas com aquele\u00a0 romantismo que se falava no passado. N\u00e9? Os povos ind\u00edgenas ou o ind\u00edgena ou a ind\u00edgena bonita dos romances. Tem que mostrar os ind\u00edgenas hoje como \u00e9, os confrontos que a gente trava, os conflitos que \u00e9 colocado, nem toda essa luta pol\u00edtica que a gente faz, para a gente continuar existindo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, hoje n\u00f3s ind\u00edgenas, n\u00f3s seguimos, na linha de frente, nessa luta. Na linha de frente contra esse modelo econ\u00f4mico, totalmente predat\u00f3rio. Na linha de frente contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, era esse o tema, n\u00e3o era? Contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas \u00e9 porque \u00e9 isso nosso pr\u00f3prio modo de vida j\u00e1 \u00e9, n\u00e9, por si s\u00f3 o enfrentamento \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, n\u00e9? No ano passado, n\u00f3s realizamos no Brasil a primeira marcha das mulheres ind\u00edgenas. N\u00e9? E muita gente pergunta, \u201cMas porque s\u00f3 vieram agora? Porque voc\u00eas chegaram? N\u00e3o, n\u00e9, a gente n\u00e3o chegou s\u00f3 agora.\u00a0 H\u00e1 500 anos a gente luta contra tudo que t\u00e1 a\u00ed. S\u00f3 que chega uma hora que a\u00a0 nossa luta local n\u00e3o \u00e9 mais suficiente. E n\u00f3s temos\u00a0 que se levantar e chamar mais pessoas para dar as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00f3s chegamos em Bras\u00edlia no ano passado, em agosto, no Dia Internacional Dos Povos Ind\u00edgenas, e n\u00f3s reunimos ali mais de tr\u00eas mil mulheres, que sa\u00edram de seus territ\u00f3rios, todas deram seu jeito de sair e chegar, muitas enfrentaram seus companheiros para poder vir. N\u00e9? Porque al\u00e9m da gente fazer esse chamado, n\u00f3s temos ainda que mostrar para nosso povo, que a n\u00e3o permiss\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o das mulheres n\u00e3o \u00e9 cultural. N\u00e3o \u00e9 cultura ter essa subservi\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 cultura. N\u00e9? Voc\u00ea, n\u00e3o \u00e9 cultura, voc\u00ea ficar ali \u00e0 margem. Isso \u00e9 heran\u00e7a colonial. Isso faz parte de todo o processo de coloniza\u00e7\u00e3o que a gente viveu, e que nossos povos tamb\u00e9m aderiram. H\u00e1 um tipo de machismo, h\u00e1 um tipo de viol\u00eancia dom\u00e9stica, e h\u00e1 um tipo de proibi\u00e7\u00e3o das mulheres de n\u00e3o participarem.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00f3s temos que romper tamb\u00e9m com essa barreira. N\u00e9? Essa barreira colonial, machista, que por muitos povos ainda \u00e9 visto como cultura. E n\u00f3s temos que fazer esse enfrentamento. E n\u00f3s conseguimos trazer tr\u00eas mil mulheres para Bras\u00edlia, realizamos a primeira marcha, n\u00e9? E cada uma que veio ali voltou sabendo que n\u00e3o voltou mais a mesma. Elas falaram, n\u00e9, \u201cEu quero estar junta, eu quero continuar, eu quero participar, eu sei que essa luta depende de n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, essa marcha foi muito importante. A primeira marcha das mulheres no Brasil, mas \u00e9 a primeira marcha das mulheres ind\u00edgenas do mundo. E, como continuidade dessa marcha, n\u00f3s vamos realizar esse ano a caravana de mulheres ind\u00edgenas pelo Brasil. A\u00ed n\u00f3s vamos circular todos os estados brasileiros, reunir com mulheres de todos os povos, de todos os territ\u00f3rios e n\u00f3s vamos\u00a0 discutir exatamente o tema dessa palestra.<\/p>\n<h4>51:00-55:00 &#8212; transcrita por Yesenia Villatoro Ramirez<\/h4>\n<p>O papel das mulheres ind\u00edgenas para conter as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. E n\u00f3s vamos tamb\u00e9m, ainda, discutir e impulsionar as candidaturas das mulheres ind\u00edgenas. Porque esse lugar na pol\u00edtica institucional \u00e9 nosso tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos hoje uma mulher deputada federal eleita na elei\u00e7\u00e3o\u00a0 passada, mas uma s\u00f3 \u00e9 pouca. A nossa luta \u00e9 coletiva, e onde tem uma, n\u00f3s temos que levar mais. Ent\u00e3o, n\u00f3s vamos\u00a0 impulsionar a candidatura de mulheres ind\u00edgenas para ocupar tamb\u00e9m todos os n\u00edveis da pol\u00edtica institucional, desde\u00a0 do seu munic\u00edpio, ao seu estado, e ao nacional, e at\u00e9 a presid\u00eancia, n\u00e9? A come\u00e7ar. Vamos seguir. Ent\u00e3o n\u00f3s vamos realizar essa caravana de mulheres pelo Brasil, e em setembro, dia cinco de setembro, que \u00e9 dia internacional da mulher ind\u00edgena, n\u00f3s vamos realizar esse encontro internacional no Brasil. \u00c9 o chamado das mulheres ind\u00edgenas do Brasil para as mulheres do mundo. Para que outras mulheres tamb\u00e9m possam se somar\u00a0 a n\u00f3s, porque n\u00e3o estamos dizendo essa luta n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nossa, n\u00f3s n\u00e3o estamos mandando conta de carregar essa responsabilidade sozinha.<\/p>\n<p>Outras mulheres tamb\u00e9m t\u00eam que chegar junto, e t\u00eam que assumir tamb\u00e9m essa responsabilidade. E se n\u00f3s estivemos at\u00e9 agora, ali, fazendo essa luta, n\u00e9, no nosso lugar, n\u00f3s queremos agora internacionalizar. Globalizar tamb\u00e9m a nossa luta. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o mercado que tem que ser globalizado, n\u00e3o. N\u00f3s temos que inclusive nos organizar globalmente para poder trazer o mercado para o local.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o podemos mais permitir que esse modelo econ\u00f4mico com base no agroneg\u00f3cio nas monoculturas, siga reduzindo a produ\u00e7\u00e3o da diversidade de gr\u00e3os. Porque da forma que est\u00e1 hoje, esse modelo da monocultura, o agroneg\u00f3cio, ele reduz entre 25 a 30% a produ\u00e7\u00e3o\u00a0 de gr\u00e3os, que \u00e9 de verdade o que a gente come. Que \u00e9 o nosso alimento. \u00c9 mais do que isso, est\u00e1 mais comprovado que 80% da alimenta\u00e7\u00e3o no mundo \u00e9 produzido pela agricultura familiar.<\/p>\n<p>No Brasil, 70% da alimenta\u00e7\u00e3o que vai para a mesa das pessoas \u00e9 agricultura familiar. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos que seguir lutando pela descentraliza\u00e7\u00e3o do uso da terra. E com isso, diversificar a produ\u00e7\u00e3o dos alimentos, e quem \u00e9 que vai fazer isso? S\u00e3o\u00a0 os grandes empres\u00e1rios? N\u00e3o \u00e9. Quem vai fazer isso somos n\u00f3s. \u00c9 o trabalhador rural, \u00e9 o pequeno produtor, n\u00f3s ind\u00edgenas, os quilombolas, comunidades tradicionais. Somos n\u00f3s que vivemos e dependemos desse territ\u00f3rio. Que temos o nosso territ\u00f3rio como esse lugar de plantar, de viver. N\u00e3o como eles que t\u00eam a terra para eles como um mercado, como um bem para negociar. Ent\u00e3o n\u00f3s temos que seguir lutando por essa rela\u00e7\u00e3o e para isso mais pessoas t\u00eam que chegar juntas. T\u00eam que estar entendendo. T\u00eam que se reconectar com a m\u00e3e natureza. T\u00eam que entender que \u00e9 exatamente essa conex\u00e3o \u00e9 que vai garantir o nosso futuro. N\u00f3s n\u00e3o temos plano B. N\u00f3s n\u00e3o temos planeta B. E o nosso caminho \u00e9 a luta. Muito obrigada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Indigenous Women on the Front Lines of Climate Activism: The Battle for Environmental Justice in the Amazon 2:20 &#8211; 11:00 &#8212; transcrita por Sara Shuler e Em Tejada Jaquez Eu consegui cantar porque eu acho que o ar condicionado me deixou meio, mas \u00e9 uma forma de nunca falar sozinha, principalmente o canto na verdade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3443,"featured_media":189,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[8,11,10,9],"class_list":["post-203","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sonia-e-celia","tag-guajajara","tag-keynote","tag-sonia-e-celia","tag-xakriaba"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3443"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=203"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":541,"href":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203\/revisions\/541"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/wp-json\/wp\/v2\/media\/189"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=203"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=203"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.smith.edu\/por228-sp20\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=203"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}